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Nº 340 - ANO 26 - JANEIRO DE 2012
 
Agricultura puxa economia em 2011, mas enfrenta riscos
 
A agricultura foi a grande responsável pelo crescimento da economia gaúcha em 2011, que teve uma alta de 6,10% no ano, ante 3,4% do Brasil, segundo estimativa da assessoria econômica do Sistema Farsul. Segundo os dados referentes apenas aos primeiros nove meses do ano, a agropecuária gaúcha cresceu quase cinco vezes mais do que a indústria mais do que o dobro que o setor de serviços. No entanto, a alta de custos e o fenômeno La Niña, que ocasiona tempo seco no sul do país, põem em risco a renda dos produtores para 2012 e em médio e longo prazo, advertiu o presidente do Sistema Farsul, Carlos Sperotto.
Em sua tradicional entrevista coletiva de final de ano, o dirigente saudou o fato de as demais federações empresariais terem reconhecido, em seus balanços anuais, a importância da atividade agropecuária para toda a economia gaúcha. “Tivemos boa safra e bons preços, salvo no arroz. Dois mil e onze termina com resultados positivos na agricultura e pecuária de corte e leite e ovinocultura. Houve dificuldade nos suínos e aves, devido ao elevado preço do milho e ao problema no mercado internacional, com o fechamento da Rússia, que deve reabrir em curto prazo. Mas isso não compromete a avaliação positiva. O crescimento da agropecuária gaúcha até o terceiro trimestre foi maior do que o da China e puxou o PIB total do Rio Grande do Sul, que ficou maior do que o do Brasil. Isso puxou a indústria, pois os setores que mais cresceram foram aqueles ligados à agricultura, como os de máquinas e equipamentos, de alimentos e de fumo”, resumiu Sperotto.
A safra gaúcha de grãos foi recorde em 2011, chegando a 28,8 milhões de toneladas. Como se tratou de uma supersafra, excepcional, a Farsul acredita que não se repetirá em 2012, fazendo com que o Estado tenha um crescimento abaixo do Brasil no ano que se inicia e que também pode ser marcado por acirramento da crise econômica internacional. Muitas regiões gaúchas já sofrem com a seca. Um dos reflexos do clima foi o replantio, com soja, de áreas de milho afetadas. De acordo com Sperotto, a prática atingiu até 10% da área de milho cultivada. “Nosso prognóstico neste momento é reservado no que diz respeito ao que será a safra agrícola do Rio Grande do Sul em 2012. Projetamos aumento de 4% na área plantada, se verificando na região Sul do Estado, para onde a lavoura de soja está migrando, já que a região de seco (no Norte) está utlilizada em sua plenitude. Mas a produção deve ser menor em 7%, devido à menor produtividade”, avaliou. Já para a pecuária, a perspectiva é de manutenção dos atuais níveis de preços, o que garante estabilidade e renda ao produtor. Além disso, Sperotto afirma que a britanização dos rebanhos gaúchos é uma tendência que se consolida, gerando um produto de maior valor agregado, com custo de produção maior do que o da criação no Centro-Oeste.
Mais do que as circunstâncias climáticas, preocupa a Farsul o elevado custo de produção brasileiro, na comparação com concorrentes no mercado mundial. Uma das principais responsáveis por isso é a pesada carga tributária. O brasileiro paga muito mais do que o produtor argentino, por exemplo, para comprar os mesmos produtos. Um trator de 120 cavalos sai 51% mais no Brasil do que no país vizinho. É apenas um exemplo de uma lista de 21 insumos comuns cujos preços foram comparados pela assessoria econômica do Sistema Farsul. No caso de alguns produtos, como os herbicidas Hussar e Ricer, o preço no Brasil é mais do que o dobro do que na Argentina.
Para Sperotto, o sistema tributário brasileiro, que penaliza investimentos em produção é prejudicial ao país. “Dói quando o produtor vai instalar os canos de um pivô de irrigação, por exemplo, e se dá conta que está pagando imposto para puxar água para produzir alimentos”, exemplifica.
Segundo o assessor econômico do Sistema Farsul, Antônio da Luz, o que faz com que o agricultor brasileiro continue competitivo, mesmo com a alta carga tributária, é a fartura de terra e recursos naturais e a eficiência das fazendas, que contam cada vez mais com o uso de tecnologias adequadas. “Só temos renda hoje porque os preços são formados nos mercados ricos, mas pagamos cada vez mais para produzir a mesma coisa”, afirma da Luz, apontando para o risco de um processo de “desagriculturização” do país, caso o Brasil continue perdendo competitividade. Considerando apenas os custos operacionais, o produtor de soja brasileiro paga duas vezes mais para produzir em um hectare do que o argentino e 30% mais do que o norte-americano. A situação é semelhante para o milho, com diferenças de 90% e 40%, respectivamente, para arroz (27% e 38%) e para o trigo (60% e 90%).
Enquanto uma reforma tributária não altera o quadro geral, a CNA e a Farsul buscam soluções para problemas pontuais. Sperotto aguarda do governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, uma resposta quanto à solicitação de equalização das alíquotas de ICMS dos produtos agrícolas com as praticadas em outros estados. Há distorções especialmente no arroz, feijão e trigo, já que as alíquotas maiores praticadas no Rio Grande do Sul desencorajam indústrias de fora que se interessariam pelos produtos gaúchos. Também há pleitos em nível nacional, como a desoneração do PIS/Cofins para carne ovina e leite, a exemplo do que foi concedido para carne bovina em 2009.
Ao mesmo tempo, acredita Sperotto, os agricultores devem fazer sua parte para continuar competitivos, buscando soluções para melhorar a eficiência da produção, como as de agricultura de precisão e integração lavoura-pecuária.
Código Florestal
Ao fazer o balanço de 2011, Sperotto também lembrou as discussões sobre o Código Florestal, que dominaram os debates ao longo do ano. Ele lamentou que a nova lei não tenha sido finalizada no período, mas lembrou que o ano serviu para torná-la conhecida pela sociedade brasileira. “O produtor acompanhou todo o processo de forma pacífica, mesmo com a perda patrimonial de 20% que terá no Estado. A Reserva Legal é como se, na cidade, dois andares de um prédio de 10 andares não pudessem ser usados”.O dirigente defende que o Brasil apresente na Rio +20, no ano que vem, a proposta de criação do Código Florestal Internacional, para que todos os países cumpram as mesmas obrigações impostas aos produtores brasileiros. Sperotto acredita que até março de 2012, data marcada para votação do projeto no plenário da Câmara dos Deputados, sejam desfeitos os pontos duvidosos permitindo que a presidente da República, Dilma Roussef, sancione a lei.
Balança Comercial
O agronegócio foi novamente o sustentáculo da balança comercial brasileira, garantindo o superávit e a manutenção da estabilidade econômica. Somente no Rio Grande do Sul, as exportações do setor somaram US$ 10,651 bilhões em 2011, representando 64% do total exportado no ano. Se o Estado não tivesse o agronegócio, a balança comercial gaúcha seria altamente deficitária. Enquanto o saldo do agro foi de US$ 9,867 bilhão positivo, o dos demais setores foi de US$ 6,110 bilhões negativo.
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